Firmino Rocha


Resumo biográfico, por Telmo Padilha:

FIRMINO ROCHA nasceu em 1920. Exerceu forte influência sobre vários poetas de sua cidade natal, Itabuna, onde faleceu em 1972. Seu poema "Deram Um Fuzil ao Menino" foi publicado pela ONU, em antologia de poemas do mundo inteiro sobre a paz. Publicou, em 1969 [na verdade, em 1968], o Canto do Dia Nôvo, com prefácio de Carvalho Filho, e ainda os livros Momentos, Poesia com Amor, Pabra, Serenina e Olerene, entre outros, todos em edições limitadas.

O CANTO DO DIA NÔVO (1968), PDF PARA BAIXAR

Poesias selecionadas

DERAM UM FUZIL AO MENINO

Adeus luares de maio
adeus tranças de Maria.
Nunca mais a inocência
nunca mais a alegria,
nunca mais a grande música
no coração do menino.
Agora é o tambor da morte rufando
       nos campos negros.
Agora são os pés violentos ferindo
       a terra bendita.
A cantiga, onde ficou a cantiga?
No caderno de números o verso
       ficou sozinho.
Adeus ribeirinhos dourados.
Adeus estrelas tangíveis.
Adeus tudo o que é de Deus.
Deram um fuzil ao menino.

***

QUERO O SILÊNCIO

O silêncio.
Quero o silêncio.
O grande silêncio.
O silêncio das águas dormindo no ventre da terra.
O silêncio das horas misteriosas
em que as virgens desejam viagens infinitas
e os pastores se ajoelham
e escutam as mensagens da Estrela da manhã.
O silêncio.
Quero o silêncio,
O grande silêncio.
O silêncio do Princípio.

***

QUERO A POESIA QUE NASCEU COM O MUNDO

Ó Musa Sereníssima!
Não quero sílabas contadas.
Quero as palavras nascidas na beleza eternal das águas,
as palavras vindas da espontaneidade dos gestos angélicos,
as palavras fecundadas
na grandeza e na humildade
das mulheres que procuram os lírios dos campos,
num poema livre.

Ó Musa Reveladora!
Não quero rimas esplendorosas.
Quero as palavras concebidas nas profundezas do ser,
as palavras concebidas no mistério dos silêncios,
as palavras concebidas na sabedoria dos simples,
num poema essencial.

Ó Musa Dolorosa!
Não quero fantasias de narcisos.
Quero as palavras paridas por ventres de noites cheias de angústias,
as palavras geradas nos peitos dilacerados,
as palavras geradas nas agonias do século XX,
as palavras geradas nas gargantas dos aflitos,
num poema esperançoso.

Ó Musa Libertadora!
Não quero os versos hierarquizados.
Quero as palavras vivas num poema rebelde,
num poema insólito que não escute os protestos de decuriões mortos,
num ritmo formidando que abafe os roncos das máquinas diabólicas,
as risadas tétricas das metralhadoras,
as ordens dos maus.

Ó Musa Viva!
Não quero os versos para os ócios dos príncipes.
Quero a Poesia que nasceu com o Mundo,
quero a Poesia que dormiu no Limbo,
quero a Poesia que despertou Hoje.

***

ÊLE ESTÁ DENTRO DE MIM

Êle está dentro de mim.
Ansioso. Revôlto. Múltiplo.
Vê o azul raiado de muitas côres
e ódios
e bôcas gritando
e córregos gargalhando
e o menininho dormindo
e aves
e harmonias
e o rosto pintado da irmãzinha afogada no mangue.

O ôlho direito na vida.
O ôlho esquerdo na morte.
Chama os inimigos de irmãos.
Crê no fim dos pesadelos.
Condena minhas maldades.
Fala:
Chora
que serás bom um dia.
Deus ensina assim.
As felicidades exiladas voltarão com a Amada.
O tempo nunca passou.
Sê êle.
Sê o tempo do amor.
Sê o tempo grávido de auroras e de alegrias.
Sê a Eternidade.
Êle está dentro de mim.
Ansioso. Revôlto. Múltiplo.
É pássaro.
Asas largas.
Quer a pureza das fontes intocadas.
Quer as conchas da praia que ninguém achou.
Quer a Vida.
Êle está dentro de mim.
O poema.

***

POEMA

Neste alvorecer de setembro
sinto acordados meus rios escondidos.
Percebo que sou antigo, muito antigo.
Que nasci com a Estrela, com a montanha,
         com a criança que persegue a borboleta.
Que não escutarei mais o mambo do bar azul
         nem as vozes da rua verde.
Percebo que sou antigo, muito antigo.
Da primeira aurora.
E que a Amada também se libertou do sono negro
e vem ao meu encontro, coberta de luz e certeza.

***

ORAÇÃO

Para longe todos os meus pecados.
Para longe todas as minhas blasfêmias.
Para longe todas as minhas covardias.
Para longe todos os meus remorsos.
Eu estou ressuscitado.
Eu volto da loucura
inconsútil
como o lírio,
fraterno
como as ovelhas,
forte
como a Estrela.
Eu estou vivo.
A lama do mundo
nem nos meus pés
continua.
Agora só vejo luz.
Agora só sinto amor.
Agora só sinto amor.
Agora só falo as palavras
que direi aos meus irmãos
quando seus braços acenarem para as aves em ascenso.
Agora só falo as palavras
que direi à Bem-Amada
quando seus passos ouvir.
Para longe todos os meus pecados.
Para longe todas as minhas blasfêmias.
Para longe todas as minhas covardias.
Para longe todos os meus remorsos.
Eu sou de novo.
E serei sempre.
Porque sou da madrugada.
Da madrugada de Deus.
Porque sou do silêncio.
Do silêncio que conforta.
Do silêncio que alenta,
do silêncio que alegra,
do silêncio que deslumbra,
do silêncio que descobre
lembrança e puro amor.
Porque sou do grande
do imenso
do infinito silêncio.

0 comentários:

Postar um comentário