SOSÍGENES COSTA nasceu em Belmonte, em 1901. Começou a escrever quando exercia a profissão de professor público. Foi secretário da Associação Comercial de Ilhéus entre 1926 e 1953 e redator do "Diário da Tarde", da mesma cidade. Em 1953, participou, em Buenos Aires, de um Congresso de cultura e no ano seguinte, viajou à Europa e Ásia, demorando-se na China. Embora considerado pela crítica mais representativa do país um dos melhores poetas de sua geração, somente em 1965 aceitou reunir parte de sua produção em livro, sob o título Obra Poética, que "Leitura" editou, com prefácio de Antônio Olinto. Faleceu no Rio de Janeiro em 1954.
Poesias selecionadas ( em Poesia Moderna da Região do Cacau, 1977)
A NEGRA MINGORRA
A negra mingorra
ainda é uma escrava.
Não ficou forra.
Ainda é uma escrava.
Zorra!
Pau de embaúba,
pau de gangorra,
pau de embaúba,
queima Gomorra,
pau de siriba
fura masmorra
e carapeba
derruba Andorra.
Mingorra, mingorra
que fique de forra.
Pau de embaúba.
A negra mingorra
ainda é uma escrava.
Não ficou forra.
Irra!
Isto é uma zorra.
A flor de caroba
sempre na jarra,
o rubim catuba
sempre na garra,
sempre no gancho
a negra mingorra.
Zorra!
A negra mingorra
ainda me empurra
o carro e a gangorra
e toma surra
de cabeçorra.
Arre!
Mingorra, mingorra
que fique forra.
Isto é uma zorra.
Como me embirra
este pé de mirra.
Morra!
A negra mingorra
ainda é uma escrava.
Isto é uma zorra.
***
DORME A LOUCURA EM ÂNFORA DE VINHO
Dorme a loucura em ânfora de vinho
e a ilusão está dentro deste poço.
Nunca a verdade esteve neste vinho.
Nunca a verdade esteve neste poço,
nesta cisterna aberta no caminho.
A ilusão é que vive neste poço.
A loucura é que dorme neste vinho.
A ilusão, que está dentro deste poço,
tem a magia do poder do vinho
e pune aquele que não sai do poço
e o que no poço sempre está sozinho.
Castiga, sim, o que não sai do poço
porém de um modo que não é mesquinho.
Se a tua sombra a cintilar no poço
tem qualquer coisa de uma luz no vinho;
se a tua sombra deu uma estrela ao poço
e deu às águas um clarão de vinho;
se antes o poço não era um mar de vinho.
Era um espelho e se mudou no poço,
era um espelho e já é um jardim de vinho,
cuidado, passarinho:
Há no castigo de se amar o poço
a mesma pena de se amar o vinho.
Aquele moço, que não sai do poço,
sem ver que o espelho se mudou no poço,
foi lançado no lodo, passarinho:
transformou-se naquela flor de poço,
que exala aroma sem possuir espinho.
Já não é um homem que não sai do poço
mas uma flor que não sairá do vinho.
A estrela d'alva apareceu no poço
com o mesmo brilho de um punhal no vinho.
Cuidado, passarinho,
se a aurora, rindo, penetrou no poço
e seu vestido se manchou de vinho
pois no poema da ilusão do poço
está o veneno do fulgor do vinho.
Suponho que está vivo em frente ao 'spelho,
há um morto se mirando ali no poço,
Não sabe que morreu de amar o poço
nem que é uma flor do poço no caminho.
Foi castigado por amar o poço
e ainda fita o poço com carinho.
E pensa que é um pavão dentro do espelho
quando é uma flor em pântano de vinho.
Não ames a miragem do poço.
Não ames só a ti mesmo, passarinho.
Deves amar a um outro passarinho
mas não afogues o amor próprio em vinho
para a loucura não acordar no vinho.
Foge deste poço.
Foge deste vinho.
Que a mentira está dentro deste poço
e a loucura está dentro deste vinho.
Xô, passarinho.
***
TORNOU-ME O POR-DO-SOL UM NOBRE ENTRE OS RAPAZES
Queima sândalo e incenso o poente amarelo
perfumando a vereda, encantando o caminho.
Anda a tristeza ao longe a tocar violoncelo.
A saudade no ocaso é uma rosa de espinho.
Tudo é doce e esplendente e mais triste e mais belo
e tem ares de sonho e cercou-se de arminho.
Encanto! E eis que já sou dono de um castelo
de coral com portões de pedra cor de vinho.
Entre os tanques dos reis, o me tanque é profundo.
Entre os ases da flora, os meus lírios lilases.
Meus pavões cor-de-rosa os únicos do mundo.
E assim sou castelão e a vida fez-se oásis
pelo simples poder, ó por-do-sol fecundo,
pelo simples poder das sugestões que trazes.
***
CREPÚSCULO DE MIRRA
A tarde fecha a cintilante umbela.
Vêm os aromas como uma grinalda
ornar a sombra arroxeada e bela
e ungir os nossos sonhos de esmeralda.
Nuvens de mirra e oriental canela
formam na sombra a singular grinalda.
E a tarde fecha a cintilante umbela
e o vento as asas de dragão desfralda.
A própria lua vem lançando aroma.
Nasce vermelha como a flor de um cardo
e sobre a mirra dos vergéis assoma.
E a noite chega no seu grifo pardo,
cheirando a incenso como o rei de Roma
e como Herodes rescendendo a nardo.

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