domingo, 12 de junho de 2016

Dormência

Se eu fosse você teria vergonha de fazer o que você fez. 
Se eu fosse você eu teria vergonha de negar o meu amor e de ir embora tão repentinamente no meio da chuva. 
Se eu fosse você eu teria vergonha de vir aqui, me provocar, dizer que não me quer pela metade e estar indo embora tão sorrateiramente, 
Se eu fosse você eu teria vergonha de vir na minha casa, transar comigo, me prometer uma conversa e fugir  
Se eu fosse você eu teria vergonha de não me amar e tentar colocar a culpa em mim 
Mas eu teria vergonha de ter me arrependido e eu também iria embora, 
Mas o mais importante de tudo,  
Se eu fosse você eu não teria deixado seu cheiro no meu travesseiro só para me deixar um pouquinho de você. 
Você disse que roubou dinheiro e um pouco do meu quarto, mas você roubou tudo de mim e foi embora como se não tivesse peso para carregar  
Se eu fosse você eu nem teria saído do meu lado porque você pode não saber, ou acreditar, mas eu te amo 
Eu não leria metade de tudo que eu sinto e  eu também não me sentiria no direito de ficar tão bravo. 
Eu não vou comer seu chocolate. 
Eu nunca quis deixar de ser só sua, eu não sei o que aconteceu, mas eu não vou chorar, eu não vou sofrer.  
Eu me envolvi e me deixei levar por um segundo, mas você ainda é tão pesado dentro de mim 
E o seu cheiro que não sai da minha mente. 

Espero que a foda tenha sido inacreditável, que você tenha gozado como nunca gozou, espero que você ache que nunca mais ninguém vai te chupar tão gostoso, que o meu gosto esteja ainda na sua boca, meu cheiro preso no seu piercing e que nunca mais você ache alguém tão apertada quanto eu tava ontem. 
Eu espero que fique tudo isso preso na sua mente, que você beba sem parar pra esquecer e que você nunca esqueça  
E eu quero que em cada porre você se lembre que foi você que me deixou, que fui eu quem implorou pra você não ir, que foi você quem me disse que queria ficar com outras pessoas. 
E eu espero que você não parta mais o meu coração 
Por favor, não vem mais aqui e me come como quem come com amor e depois me deixa, como quem deixa sem pena.  
Seja coerente comigo, com você, com o que a gente viveu, com o que aconteceu, com o que você é pra mim, com o que eu sou pra você e depois você me diz se você leu tudo isso até aqui.  
Eu te amo e nesse momento parece que eu to dormente, mas eu não vou morrer porque você me deixou num dia chuvoso de domingo dos namorados. 

Eu não vou de forma alguma morrer. 

Giulia Caroline
Nova Poesia Sul Baiana

segunda-feira, 23 de maio de 2016

MANIFESTO SOBRE A NOVA POESIA SUL BAIANA

Existe um canto no sul da Bahia, um canto perene e que permeia nossos ouvidos. Canto tão antigo quanto o horizonte, quanto a vastidão verde de lembranças.... Este canto é antiquíssimo, mas se refaz. Toma corpo em barcos e jangadas, nas cigarras gritantes do final de tarde, nos versos riscados pelas mãos raivosas... é o canto antigo que toma novas formas e nos confere sua paixão. Não, ainda mais: seu ritmo, sua força, seu ímpeto, sua majestade. É um canto que no corpo é gesto, que no céu é o vento e a chuva, que no chão é o mar e a mata. Todos os gritos se renovam, numa nova geração de gritadores, a reorganizar o canto deste lado da Bahia.... Todos os silêncios se exasperam a ouvir de longe a agressividade destas vozes e o quebrar violento das ondas contra as rochas de cá. Toda a vitalidade fulgurante se entorpece e treme. Treme como jamais tremeu. A cada geração, a cada corrosão, a cada nova irrupção, uma nova poesia... um novo canto, sendo o mesmo, a se reconfigurar.

Atualmente, no auge de nosso engatinhar, somos pequeninos pontos num espaço gigantesco... infinitamente distantes uns dos outros mas, conforme escrevemos, cada vez mais em uma rota de colisão. Nossa história é o contínuo de marcas desse canto que, até agora há pouco, fora comum, mas que se dissolve em nossos pensamentos e se reescreve, fiel ao que estamos sendo, no corpo de nossa poesia. Somos gritos distintos demais... em rota de colisão.

Esta Nova Poesia, vívida e ao mesmo tempo mórbida, Sul Baiana, é um trecho vacilante (ou mesmo nota de rodapé) da vida poética do sul. Somos breves, eternamente ecos deste canto.... Somos polpa de um novo fruto, sintomas de uma nova doença, arranjamento de um novo coágulo. Ao mesmo tempo, porém, fruto de uma mesma árvore, doença de um mesmo mal, coágulo de um mesmo sangue. É o canto antigo que pulsa e se entoa, novamente, através de toda essa vida, mas que se agiganta e se eleva ao seu limite junto ao nosso grito. Mais uma vez este canto, junto aos nossos versos, reflexos, expulsos em uma folha de papel ou no vento denso dos céus da Bahia.... É o grito que mancha o tempo com seu peso e que obriga toda existência a contemplá-lo; é a face potente, cruel, ininterrupta de toda a nossa poesia que se reconfigura, antiga e, mais uma vez, novíssima. É canto perene, esta poesia. Canto velho, tanto quanto o horizonte ou a vastidão verde de lembranças... canto antigo e nova, para sempre Nova, a Poesia Sul Baiana....

Rui Benevides Prates
Nova Poesia Sul Baiana

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Temores da noite

1

A minha vida é como portas abertas e fechadas,
Um flash do que não foi, ou poderia ser.
Eu sou o incerto frustrado,
O silêncio em uma cena solitária,
O tempo que o fósforo leva até queimar o dedo.

Sou quase nada, com um sotaque carregado,
Desespero de pele grossa,
Tristeza feroz por uma brecha de luz
De salvação.
Eu estou morta, mas não desisti de viver
Eu estou dilacerada, mas ainda pulso por sentir.

No escuro, as pernas sabem para onde ir em caminho conhecido,
Mas eu jamais andei por aqui. 
Eu sou o resto de piedade de quem vos salvo
Ninguém, vestido com roupa de gala e eu sou tão triste que o meu sorriso falso cativa. 

Minhas lágrimas que tão verdadeiras eu não tenho coragem de derramar
Eu tenho vergonha de quem eu sou de quem eu criei
Eu tenho medo de quantas vezes vão cortar os meus fios
Ou se vão descobrir que fui eu quem os cortou. 
Eu sinto tanta vontade e mesmo assim o meu próprio julgar me diz não
Eu e meu corpo somos duas pessoas diferentes.
Eu sinto falta de me possuir.

***

2

Me desculpa se eu menti e você leu em meus olhos a verdade,
Eu gostaria de chorar calada na sua sala de tv
E eu queria que a minha existência fosse assim tão importante quanto a gente finge ser.

Eu queria que a cama fosse só minha e que a obrigação do silêncio fosse violada,
Que os meus olhos não ficassem impossibilitados de ver e que eu não sentisse vergonha de como a minha voz muda quando eu to chorando.
Gostaria que patética não fosse a palavra em minha mente para minha imagem
Que as palavras falassem frases mais modeladas 
Que a minha dor não fosse tão previsível lamento moderno.

Me conta como é ser você para as vezes eu desejar ser parte de sua história 
Pergunta do meu dia e me diz o que fazer.
Porque hoje eu não tenho com quem conversar
Não existe abraço que não seja nos meus próprios braços e
Eu choro como quem chora por perdão

Não ha ninguém por mim
E so ha por mim quem de mim fez ninguem
So existe o que me desfigurou 
E eu vou de mãos dadas com o meu assassino, calorosa recebida de um adeus sem fim.
Me aprofundo no que me rasga, sindrome de Estolcomo

***

3

Quando a gente passa de uma idade de descoberta e passa para uma fase de vivência, eu sinto falta do novo em mim. Eu sinto compulsivamente o desejo de viver um desconhecido bem gostoso, ou calminho fim de tarde. 
Só pela lembrança do sabor que é a empolgação de descobrir
Mas nós esquecemos da tão gritante e performática ausência de jovialidade,
Disposição, disponibilidade. Inocência, confiança, eu sinto falta da esperança 
Do mundo melhor, 
De ser diferente 
De amar.
A minha vida de tanta alegria eu me desgracei em insignificância 
Não existindo correlação corpo espírito eu sinceramente não sou mais eu e eu to com medo
Pra caralho 
Eu me envergonho de mim mesma

Giulia Caroline
Nova Poesia Sul Baiana

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Porta-voz

Eu me sinto só
mas quem não se sente?
Nesse mundo separatista
louco é ser humanista

Roubo os seus méritos
E desfaço-lhes da culpa
Mas não pense que sereis culpado
não discorde de vossa santidade

Apenas porta-voz
da pequena revolução
Todos juntos vamos achar
uma nova solução

 Levante a sua voz!
Defenda a renovação!
Porque bons e velhos costumes
o inferno tem de montão

Mais um porta-voz
da enorme revolução
Todos juntos vamos fundar
nossa própria religião.


João Otávio
Nova Poesia Sul Baiana

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Sobre fluidos


Às vezes tá tudo tão frio aqui fora
que a gente tem que sangrar ou gozar
pra lembrar que tem uma coisa
que ainda bate aqui dentro

e jorrando fluido quente
a gente percebe que é isso que faz a gente
ser tudo igual

mas cada um sangra de uma ferida diferente
de uma dor que ninguém mais sente
e goza numa foda que é única


(e tem gente que nem fodendo tá)

Carlos Bispo
Nova Poesia Sul Baiana

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Saudades do mar sem fim da Bahia

Me corrói a grandes prantos olhar para os lados e nada ver das verdes águas que banham as baías da Bahia

Do som estrondoso daquela coisa tão nossa, tão distante, que se bate contra os rochedos do Pernambuco

O coração aperta, resgata as memórias

Do Acarajé de Irene

Do caruru de 7 meninos na casa de Neide,

Da Moqueca de Nelma do mais alto dos altos do Coqueiro

Da zoada das altas gargalhadas que se deleitam nas feiras da Bahia, dos vendedores que gritam e oferecem naquele sotaque familiar as matérias primas dos pratos das mesas baianas que se despojam no tabuleiro

Essa conjunção inerente à alma baiana subjaz às memórias dos baianos onde quer que eles estejam

Ilhéus vive no coração de cada ilheense como um sustentáculo pulsante de vida que, sugando da terra mãe todos os seus nutrientes, prepara seus queridos filhos para a luta diária da existência

Carlos Eneas 
Nova Poesia Sul Baiana

segunda-feira, 18 de abril de 2016

MISTÉRIOS E SUSPENSES NA CIDADE DAS CHUVAS DE JUNHO



Não é que o sol não apareça em junho, não é isso. A falta não costuma protagonizar o clima por aqui. O que acontece em Ilhéus no sexto mês do ano é a eclosão de um excesso. Acorde pela manhã e passe o dedo pelos móveis, pela parede. Não foi a chuva que entrou, mas está tudo irremediavelmente molhado. A umidade é um limite da atmosfera pesada que se instala durante essa época em que se vê a neblina do alto dos morros, em que a chuva é tão grossa que desperta nos corações os sentimentos mais contraditórios: é um fascínio e um medo? É essa água doce que engrossa a pele e a roupa, que faz batuque nos telhados, que transforma o som da mata, será ela um choro? Será que ela sabe o que faz, o que provoca, o que acomete em nossas convulsões? É que o peso de Ilhéus tem muitas faces. Essa umidade que exercita os corpos em doenças consecutivas é uma prova e, ao mesmo tempo, um verso da Poesia.
Mas não, não se desespere. Não fuja assim tão facilmente. É compreensível que a intensidade assuste mais do que encante de imediato, mas tente aproveitar um pouco esse tremor, esse pequeno frio que vem em estalos conforme as chuvas se seguem, todos os dias, quase em todos os momentos, enfurecendo-se e acalmando-se como lhe convém. A intensidade, eu sei, é difícil. O virtual nos tem tomado com seu êxito e seu êxtase de proposições. Contudo, perseverando na ascese quase excrementícia que esta cidade nos oferece, deslocamo-nos aos poucos da retidão e começamos a compreender o ritmo dos pingos grossos desse céu. A baía cinza, o mesmo céu cinza, a chuva cinza, o corpo quase cinza... junho se desdobra em eviscerações da mistura de preto e branco... chove tanto, tanto, às vezes nos perguntamos onde isso vai parar. É o vento frio, tão pesado como uma onda, que nos aplaca e grita: Sinta! Sinta que essa terra é mar, vento e mata; golpe fatal no peito inocente. Irrompe um novo amor pelo sangue. O que traz essa chuva pesada diariamente sobre minha cabeça? Cada nuvem preta que se aproxima suspende os atos. Hora do suspense. A chuva cai... o suspense se desenrola com o mistério... que clamor é esse? Rasga o ar, o eco de todos os vivos. É a dança sob o mar doce de chuva! A paralisia se instaura... eu não saio em dia de chuva de junho.
À noite, no alto do morro, frio. No escuro até a umidade tem ápice. É hora do cuidado. O Suspense é paralisia e medo. O corpo é alerta; a epiderme, cautela e tremor. É tempo de mágica pesada. A vida em junho é agenciamento com feitiçaria mórbida. O catarro é inflamação de agonia, resolve agoniando-se mais ou espremendo os bubões do afeto; a tosse pode ser seca ou molhada desse catarro, caso seja seca é melhor procurar inflamar; febre é convulsão; dor de cabeça é falta de mistério ou suspense não percebido; qualquer coisa na pele é a umidade que quer te tirar pra dançar e você não deixa. Não perceber ou aceitar esses termos é negar a força da cidade. Poder até pode, afinal, tudo existe. A questão é que, irremediavelmente, você vai saber que está lidando com feitiçaria. E é das mais cruéis. O problema é que a cidade é mágica. A cidade segue em movimento de Crueldade, destruição por destruição, putrefação por putrefação, caos por caos, aquietação, vazio e novidade... Morte e Vida em uma confusão. Emaranhado de mudanças repentinas. Atos repentinos. Gratuidade. Ápice de gratuidade. Despropósito.
Coroando-se como Rainha do Prazer e da Podridão, a cidade cria seus poetas. É poeta da mata, ouvi dizer, da mata que invade as estradas. É poeta do mar também, do mar que é veia aberta, eclosão de encontro dos rios. É poeta dos morros, é claro, do cansaço das ladeiras, do segredo dos caminhos, do barulho e do silêncio do terreiro.... É poeta do céu de Ilhéus, vislumbrando avistá-la como um todo, lá de cima, de onde a chuva de junho se produz e se refaz bem como toda a Poesia desta cidade. Seu ápice mórbido é de junho. Seu ápice de umidade... chuva que traz a vida e a morte, que inunda e corrói, que lava e, acima de tudo, transborda. A chuva de junho é faceta de Poesia. É verso. É exercício pra poeta. Agora é som da mata e pingos nas folhas, aqui, no ouvido de quem anseia pelo sangue em versos da cidade de Ilhéus...

Rui Benevides Prates
Nova Poesia Sul Baiana