segunda-feira, 25 de abril de 2016

Saudades do mar sem fim da Bahia

Me corrói a grandes prantos olhar para os lados e nada ver das verdes águas que banham as baías da Bahia

Do som estrondoso daquela coisa tão nossa, tão distante, que se bate contra os rochedos do Pernambuco

O coração aperta, resgata as memórias

Do Acarajé de Irene

Do caruru de 7 meninos na casa de Neide,

Da Moqueca de Nelma do mais alto dos altos do Coqueiro

Da zoada das altas gargalhadas que se deleitam nas feiras da Bahia, dos vendedores que gritam e oferecem naquele sotaque familiar as matérias primas dos pratos das mesas baianas que se despojam no tabuleiro

Essa conjunção inerente à alma baiana subjaz às memórias dos baianos onde quer que eles estejam

Ilhéus vive no coração de cada ilheense como um sustentáculo pulsante de vida que, sugando da terra mãe todos os seus nutrientes, prepara seus queridos filhos para a luta diária da existência

Carlos Eneas 
Nova Poesia Sul Baiana

segunda-feira, 18 de abril de 2016

MISTÉRIOS E SUSPENSES NA CIDADE DAS CHUVAS DE JUNHO



Não é que o sol não apareça em junho, não é isso. A falta não costuma protagonizar o clima por aqui. O que acontece em Ilhéus no sexto mês do ano é a eclosão de um excesso. Acorde pela manhã e passe o dedo pelos móveis, pela parede. Não foi a chuva que entrou, mas está tudo irremediavelmente molhado. A umidade é um limite da atmosfera pesada que se instala durante essa época em que se vê a neblina do alto dos morros, em que a chuva é tão grossa que desperta nos corações os sentimentos mais contraditórios: é um fascínio e um medo? É essa água doce que engrossa a pele e a roupa, que faz batuque nos telhados, que transforma o som da mata, será ela um choro? Será que ela sabe o que faz, o que provoca, o que acomete em nossas convulsões? É que o peso de Ilhéus tem muitas faces. Essa umidade que exercita os corpos em doenças consecutivas é uma prova e, ao mesmo tempo, um verso da Poesia.
Mas não, não se desespere. Não fuja assim tão facilmente. É compreensível que a intensidade assuste mais do que encante de imediato, mas tente aproveitar um pouco esse tremor, esse pequeno frio que vem em estalos conforme as chuvas se seguem, todos os dias, quase em todos os momentos, enfurecendo-se e acalmando-se como lhe convém. A intensidade, eu sei, é difícil. O virtual nos tem tomado com seu êxito e seu êxtase de proposições. Contudo, perseverando na ascese quase excrementícia que esta cidade nos oferece, deslocamo-nos aos poucos da retidão e começamos a compreender o ritmo dos pingos grossos desse céu. A baía cinza, o mesmo céu cinza, a chuva cinza, o corpo quase cinza... junho se desdobra em eviscerações da mistura de preto e branco... chove tanto, tanto, às vezes nos perguntamos onde isso vai parar. É o vento frio, tão pesado como uma onda, que nos aplaca e grita: Sinta! Sinta que essa terra é mar, vento e mata; golpe fatal no peito inocente. Irrompe um novo amor pelo sangue. O que traz essa chuva pesada diariamente sobre minha cabeça? Cada nuvem preta que se aproxima suspende os atos. Hora do suspense. A chuva cai... o suspense se desenrola com o mistério... que clamor é esse? Rasga o ar, o eco de todos os vivos. É a dança sob o mar doce de chuva! A paralisia se instaura... eu não saio em dia de chuva de junho.
À noite, no alto do morro, frio. No escuro até a umidade tem ápice. É hora do cuidado. O Suspense é paralisia e medo. O corpo é alerta; a epiderme, cautela e tremor. É tempo de mágica pesada. A vida em junho é agenciamento com feitiçaria mórbida. O catarro é inflamação de agonia, resolve agoniando-se mais ou espremendo os bubões do afeto; a tosse pode ser seca ou molhada desse catarro, caso seja seca é melhor procurar inflamar; febre é convulsão; dor de cabeça é falta de mistério ou suspense não percebido; qualquer coisa na pele é a umidade que quer te tirar pra dançar e você não deixa. Não perceber ou aceitar esses termos é negar a força da cidade. Poder até pode, afinal, tudo existe. A questão é que, irremediavelmente, você vai saber que está lidando com feitiçaria. E é das mais cruéis. O problema é que a cidade é mágica. A cidade segue em movimento de Crueldade, destruição por destruição, putrefação por putrefação, caos por caos, aquietação, vazio e novidade... Morte e Vida em uma confusão. Emaranhado de mudanças repentinas. Atos repentinos. Gratuidade. Ápice de gratuidade. Despropósito.
Coroando-se como Rainha do Prazer e da Podridão, a cidade cria seus poetas. É poeta da mata, ouvi dizer, da mata que invade as estradas. É poeta do mar também, do mar que é veia aberta, eclosão de encontro dos rios. É poeta dos morros, é claro, do cansaço das ladeiras, do segredo dos caminhos, do barulho e do silêncio do terreiro.... É poeta do céu de Ilhéus, vislumbrando avistá-la como um todo, lá de cima, de onde a chuva de junho se produz e se refaz bem como toda a Poesia desta cidade. Seu ápice mórbido é de junho. Seu ápice de umidade... chuva que traz a vida e a morte, que inunda e corrói, que lava e, acima de tudo, transborda. A chuva de junho é faceta de Poesia. É verso. É exercício pra poeta. Agora é som da mata e pingos nas folhas, aqui, no ouvido de quem anseia pelo sangue em versos da cidade de Ilhéus...

Rui Benevides Prates
Nova Poesia Sul Baiana