Não é que o
sol não apareça em junho, não é isso. A falta não costuma protagonizar o clima
por aqui. O que acontece em Ilhéus no sexto mês do ano é a eclosão de um
excesso. Acorde pela manhã e passe o dedo pelos móveis, pela parede. Não foi a
chuva que entrou, mas está tudo irremediavelmente molhado. A umidade é um
limite da atmosfera pesada que se instala durante essa época em que se vê a
neblina do alto dos morros, em que a chuva é tão grossa que desperta nos
corações os sentimentos mais contraditórios: é um fascínio e um medo? É essa
água doce que engrossa a pele e a roupa, que faz batuque nos telhados, que
transforma o som da mata, será ela um choro? Será que ela sabe o que faz, o que
provoca, o que acomete em nossas convulsões? É que o peso de Ilhéus tem muitas
faces. Essa umidade que exercita os corpos em doenças consecutivas é uma prova
e, ao mesmo tempo, um verso da Poesia.
Mas não, não
se desespere. Não fuja assim tão facilmente. É compreensível que a intensidade
assuste mais do que encante de imediato, mas tente aproveitar um pouco esse
tremor, esse pequeno frio que vem em estalos conforme as chuvas se seguem,
todos os dias, quase em todos os momentos, enfurecendo-se e acalmando-se como
lhe convém. A intensidade, eu sei, é difícil. O virtual nos tem tomado com seu
êxito e seu êxtase de proposições. Contudo, perseverando na ascese quase
excrementícia que esta cidade nos oferece, deslocamo-nos aos poucos da retidão
e começamos a compreender o ritmo dos pingos grossos desse céu. A baía cinza, o
mesmo céu cinza, a chuva cinza, o corpo quase cinza... junho se desdobra em
eviscerações da mistura de preto e branco... chove tanto, tanto, às vezes nos
perguntamos onde isso vai parar. É o vento frio, tão pesado como uma onda, que
nos aplaca e grita: Sinta! Sinta que essa terra é mar, vento e mata; golpe
fatal no peito inocente. Irrompe um novo amor pelo sangue. O que traz essa
chuva pesada diariamente sobre minha cabeça? Cada nuvem preta que se aproxima
suspende os atos. Hora do suspense. A chuva cai... o suspense se desenrola com
o mistério... que clamor é esse? Rasga o ar, o eco de todos os vivos. É a dança
sob o mar doce de chuva! A paralisia se instaura... eu não saio em dia de chuva
de junho.
À noite, no alto
do morro, frio. No escuro até a umidade tem ápice. É hora do cuidado. O
Suspense é paralisia e medo. O corpo é alerta; a epiderme, cautela e tremor. É
tempo de mágica pesada. A vida em junho é agenciamento com feitiçaria mórbida.
O catarro é inflamação de agonia, resolve agoniando-se mais ou espremendo os
bubões do afeto; a tosse pode ser seca ou molhada desse catarro, caso seja seca
é melhor procurar inflamar; febre é convulsão; dor de cabeça é falta de
mistério ou suspense não percebido; qualquer coisa na pele é a umidade que quer
te tirar pra dançar e você não deixa. Não perceber ou aceitar esses termos é
negar a força da cidade. Poder até pode, afinal, tudo existe. A questão é que,
irremediavelmente, você vai saber que está lidando com feitiçaria. E é das mais
cruéis. O problema é que a cidade é mágica. A cidade segue em movimento de
Crueldade, destruição por destruição, putrefação por putrefação, caos por caos,
aquietação, vazio e novidade... Morte e Vida em uma confusão. Emaranhado de
mudanças repentinas. Atos repentinos. Gratuidade. Ápice de gratuidade.
Despropósito.
Coroando-se
como Rainha do Prazer e da Podridão, a cidade cria seus poetas. É poeta da
mata, ouvi dizer, da mata que invade as estradas. É poeta do mar também, do mar
que é veia aberta, eclosão de encontro dos rios. É poeta dos morros, é claro,
do cansaço das ladeiras, do segredo dos caminhos, do barulho e do silêncio do
terreiro.... É poeta do céu de Ilhéus, vislumbrando avistá-la como um todo, lá
de cima, de onde a chuva de junho se produz e se refaz bem como toda a Poesia
desta cidade. Seu ápice mórbido é de junho. Seu ápice de umidade... chuva que
traz a vida e a morte, que inunda e corrói, que lava e, acima de tudo,
transborda. A chuva de junho é faceta de Poesia. É verso. É exercício pra
poeta. Agora é som da mata e pingos nas folhas, aqui, no ouvido de quem anseia
pelo sangue em versos da cidade de Ilhéus...
Rui Benevides Prates
Nova Poesia Sul Baiana