Existe um canto no sul da Bahia,
um canto perene e que permeia nossos ouvidos. Canto tão antigo quanto o
horizonte, quanto a vastidão verde de lembranças.... Este canto é antiquíssimo,
mas se refaz. Toma corpo em barcos e jangadas, nas cigarras gritantes do final
de tarde, nos versos riscados pelas mãos raivosas... é o canto antigo que toma
novas formas e nos confere sua paixão. Não, ainda mais: seu ritmo, sua força,
seu ímpeto, sua majestade. É um canto que no corpo é gesto, que no céu é o
vento e a chuva, que no chão é o mar e a mata. Todos os gritos se renovam, numa
nova geração de gritadores, a reorganizar o canto deste lado da Bahia.... Todos
os silêncios se exasperam a ouvir de longe a agressividade destas vozes e o quebrar
violento das ondas contra as rochas de cá. Toda a vitalidade fulgurante se
entorpece e treme. Treme como jamais tremeu. A cada geração, a cada corrosão, a
cada nova irrupção, uma nova poesia... um novo canto, sendo o mesmo, a se
reconfigurar.
Atualmente, no auge de nosso
engatinhar, somos pequeninos pontos num espaço gigantesco... infinitamente
distantes uns dos outros mas, conforme escrevemos, cada vez mais em uma rota de
colisão. Nossa história é o contínuo de marcas desse canto que, até agora há
pouco, fora comum, mas que se dissolve em nossos pensamentos e se reescreve,
fiel ao que estamos sendo, no corpo de nossa poesia. Somos gritos distintos
demais... em rota de colisão.
Esta Nova Poesia, vívida e ao
mesmo tempo mórbida, Sul Baiana, é um trecho vacilante (ou mesmo nota de
rodapé) da vida poética do sul. Somos breves, eternamente ecos deste canto....
Somos polpa de um novo fruto, sintomas de uma nova doença, arranjamento de um
novo coágulo. Ao mesmo tempo, porém, fruto de uma mesma árvore, doença de um
mesmo mal, coágulo de um mesmo sangue. É o canto antigo que pulsa e se entoa,
novamente, através de toda essa vida, mas que se agiganta e se eleva ao seu
limite junto ao nosso grito. Mais uma vez este canto, junto aos nossos versos,
reflexos, expulsos em uma folha de papel ou no vento denso dos céus da
Bahia.... É o grito que mancha o tempo com seu peso e que obriga toda
existência a contemplá-lo; é a face potente, cruel, ininterrupta de toda a
nossa poesia que se reconfigura, antiga e, mais uma vez, novíssima. É canto
perene, esta poesia. Canto velho, tanto quanto o horizonte ou a vastidão verde
de lembranças... canto antigo e nova, para sempre Nova, a Poesia Sul Baiana....
Rui Benevides Prates
Nova Poesia Sul Baiana
Aqui encontro o novo,verdinho. Ou a verde lembrança de um tempo-espaço já maduro,ou em novas formas de renascimento. O grito como movimento do ufanismo que não se acomoda, a contemplação que não se torna estagnada, mas permite o surgimento de novos encontros e significados. Bom ver como o lirismo reconstroi todo espaço, todo afeto - como o pulsar da vida colide novos encaixes. Bom ver que o canto transcende a experiência temporal. Viva a intensidade do afetar-se e do ecoar de cada instante. Viva a poesia em qualquer canto, ou conto.
ResponderExcluirComo umas conversas que foram surgindo ao longo dos anos "aqui no sul da Bahia tem um monte de escritor né? Todo mundo aqui escreve bem" e o desenrolar do que a frente isso virou "vamos fazer um sarau na praça com poesia sul baiana?".
ResponderExcluirCompreendi que o lugar não é só o lugar, mas a magia, as pessoas, o ambienta a cultura... no meio disso tudo a gente se conheceu, se juntou e formamos um grande coágulo de poemas nessa veia aorta que é o sul da Bahia (pra gente que a ama).
Nós somos mesmo farinha do mesmo saco e poesia as vezes é gostoso, mas as vezes dói também. Juntos pelas palavras, mas não só de palavras, você nos reúne, cada grão deste saco de farinha.
Te amo senhor cabulosão. Foi o texto viu querida.