A Poesia do Cacau, por Hélio Pólvora

(Este é o prefácio da antologia Poesia Moderna da Região do Cacau, organizado por Telmo Padilha e publicado pela editora Civilização Brasileira em 1977).



A POESIA DO CACAU
Hélio Pólvora

Reunidos em antologia, pela primeira vez, aqui estão os poetas sul-baianos. Melhor dizendo: os poetas daquela região entre os rios Pardo e Jequitinhonha boa para cultivo de cacau. Aquela região onde chegariam em 1746, segundo historiadores, as sementes de cacau trazidas da Amazônia, para encontrar terra, clima e braços propícios.
Sobretudo, uma terra, conforme disse Jorge Amado, que a cantou em epopéias e crônicas memoráveis, "adubada com sangue". Nem todos os nomes "antologiados" por Telmo Padilha serão poetas do cacau. Caberia a expressão genérica de poetas da região cacaueira da Bahia, com os seus principais pontos de referência nas cidades-município de Itabuna e Ilhéus.
O cacau, tal como as boiadas, o café, as lavras auríferas e diamantinas, a cana-de-açúcar e a erva-mate, constitui hoje um dos ciclos regionais de nossa prosa e ficção. Começou ele com Inglês de Sousa, na transposição do Romantismo para o Realismo. Fernando Sales, ao retratar o ciclo ficcional dos cacauais,¹ mencionou, com toda razão, seu bandeirante Inglês de Sousa na trilogia O Caucaulista (1876), O Coronel Sangrado (1877) e O Missionário (1891).
Somente em 1914, em outro período de transição literária, a temática do cacau viria a ser retomada, desta feita por um escritor baiano identificado com a paisagem e a geografia do sul do Estado: Afrânio Peixoto, em Maria Bonita, a que se seguiu, em 1920, o outro romance do cacau, Fruta do Mato.
O espaço entre as manifestações literárias inspiradas no cacau será progressivamente reduzido daí por diante. Jorge Amado levou a saga romanesca ao romance, e nas suas pegadas seguiram outros ficcionistas entre os quais avultam, pela obra já realizada, Adonias Filho e Jorge Medauar, este de Uruçuca, antiga Água Preta, onde localizou contos e novelas, aquele de Itajuípe, ex-Pirangi, cenário de seus romances e novelas.
Paralelamente a estes prosadores brotaram poetas. O itabunense José Bastos, parnasiano-simbolista, escreveu nos começos deste século [XX], e Sosígenes Costa, nascido em Belmonte mas ilheense por adoção, foi até alguns anos atrás o mais conhecido e festejado poeta sul-baiano. Teimou em não reunir sua produção em livro, só o fazendo no Rio de Janeiro, poucos anos antes de falecer. Isto terá prejudicado seu reconhecimento em termos nacionais, pois, na memória do sul da Bahia, Sosígenes Costa continua querido e encomiado.
Não sem alguma surpresa verifica-se que a terra do cacau, tão pródiga em temas ficcionais, atraiu principalmente narradores. Não tivemos poetas épicos. A poesia desatada, em condição de matéria-prima, irá impregnar o cancioneiro épico-social de Jorge Amado. Em certos trechos de Terras do Sem Fim (1941) esta poesia denuncia-se no metro, na rima e na forma. Em Gabriela Cravo e Canela repontam cantares que o romancista colocou no pórtico, à guisa de motes.
O cacau impõe sua presença nestes cantos de origem popular. Na boca do povo, dos trovadores anônimos e dos cegos de feira, tal poesia de conteúdo épico adquire ressonância. Tudo indica que a prosa de ficção, mais presa à realidade imediata, nela alimentando-se, nela se documentando, antecipou-se, desbravou terreno e conviveu com uma poesia em estado rudimentar. Embora se percebam, em Sosígenes Costa, notas de cor local elas serão manchas e impressões de sabor pessoal, inspiradas por estado de ânimo.
Da mesma forma o lirismo paternal de Firmino Rocha de uma ideologia ingênua e pura, e o canto largo, à feição whitmaniana, de Camilo de Jesus Lima, usaram a terra sul-baiana como plataforma de lançamento. A poesia mesclada na prosa dissociou-se em data mais próxima quando começou a se configurar uma geração de poetas para os quais a poesia é conceito, síntese, linguagem.
Por isso, certamente, Adonias Filho,² em discurso de posse na Academia Brasileira, a 28 de abril de 1965, deixou de considerar a poesia como instrumento de captação da terra e de seus temas: "O agreste de Ilhéus, Itabuna e Itajuípe, em todas as aventuras do povo no sul da Bahia, chega pelas vozes que narram."
Observa-se ultimamente um esforço para transportar o cacau a nível de poema literariamente elaborado. Como em "Pisoteio", de Telmo Padilha:

Se em duas bandas o corto
mais que um gesto, produzo:
o branco, tom e invólucro
exibe seu brilho, ponche
no copo, esse beber
de um deus que não é

No outro, o gesto
de pisar, dança e canto
e odor (ao sol), suor
que mais sua, a chuva
por chegar, antes que chegue.

Antes da fábrica, os pés
gestam o brilho, quentes
em compromisso e dança,
semente quase pronta
em escrita regular. (...)

A terra, pelo visto, tem outras forças temáticas além das sagas do desbravamento, das alternâncias de el-dorado e miséria, das lutas épicas outrora travadas à sombra de "coronéis" e jagunços. Jorge Amado referiu-se ao "transbordamento da própria terra, sua luz, as cores, a poderosa atmosfera plástica."³ Esta plasticidade, a par de alguns motivos folclóricos de extração sul-baiana, inunda a poesia engalanada de Sosígenes Costa, em especial os sonetos. E se encontra também na lapidação moderna, sensorial e cativante de Florisvaldo Mattos - um poeta, de resto, no qual as vozes pessoais convivem com os sentimentos coletivos, um dos grandes poetas brasileiros da atualidade. Maior ele seria se mais ampla a obra.
E que dizer de Jorge Medauar, em cuja poesia, a exemplo da prosa dos contos sobre os cacauais e pequenas cidades, há uma identificação profunda com a paisagem e as coisas fundamentais? Sim, estes poetas sul-baianos, da zona cacaueira, não renegam suas origens: neles o primitivismo pulsa. Neles, incluindo os mais novos, fermenta quase sempre alguma coisa oriunda da moldura social, econômica e humana da zona cacaueira - por Adonias Filho chamada "chão de cacau". E a visão plástica, um esplendor impressionista.
"Que diziam os coronéis do cacau (...) aqueles que mataram e morreram para plantar a terra (...) Os seus meninos, que eles desejavam doutores, médicos, advogados ou engenheiros, sugaram ao nascer os seios da violência desatada, da indômita coragem e da vida vivida enfrentando a morte; assim cresceram mais do que eles pediram e esperaram, e, em vez de bacharéis, foram escritores, criadores de vida." É o que pergunta e responde Jorge Amado.4
Este grupo de poetas selecionados por Telmo Padilha - também ele poeta, e duplamente laureado - no Brasil com o Prêmio Nacional de Poesia do MEC/INL em 1975, e no exterior com o Prêmio Internacional de Literatura San Rocco, da Itália, em 1976 -, traduzido para vários idiomas, aqui ausente por motivos éticos - pertence já a uma geração que se bate com as palavras. A geração de Cyro de Mattos, o ficcionista de Violentos e Desalmados, cujo fluxo lírico haveria de transbordar em poesia. A geração de Waldelice Pinheiro e Jorge de Araújo. A geração, em suma, que vê nascer laboratórios de cultura, como a Universidade de Santa Cruz, entre Itabuna e Ilhéus.
Longe vai o tempo em que Sosígenes Costa, recluso na Associação Comercial de Ilhéus, contemplava poentes e causava admiração - aquela admiração impregnada de ironia, segundo Carlos Drummond de Andrade em "Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin", a propósito do poeta do interior. Em que Firmino Rocha, em suas crises de criação, percorria à noite, desvairado, as ruas de Itabuna. Em que Camilo de Jesus Lima era poeta itinerante, a promover recitais. Em que Florisvaldo Mattos, com um grupo de jovens idealistas, fundava o jornal A Terra e espantava o establishment político impermeável à crítica.
Sucederam-se as colheitas. E com o cacau surge hoje um de seus derivados - a Cultura. Naturalmente subsistem modismos, peculiaridades da terra, de gente, de costumes. Mas o sul da Bahia, pela voz de seus ficcionistas e poetas, críticos e ensaístas (um dos melhores ensaístas brasileiros de agora, Carlos Nélson Coutinho, é itabunense de nascimento), atinge audiência maior, no universo brasileiro. E, podemos afirmar, já não exporta apenas cacau nos porões dos navios cargueiros, senão também a força espiritual desta boa lavra.

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1 - Fernando Sales, "A Saga do Cacau", in "Tribuna do Cacau", Itabuna, 1975.
2 - Adonias Filho e Jorge Amado, A Nação Grapiúna. Edições Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1965.
3 - Id.
4 - Ibid.

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