segunda-feira, 23 de maio de 2016

MANIFESTO SOBRE A NOVA POESIA SUL BAIANA

Existe um canto no sul da Bahia, um canto perene e que permeia nossos ouvidos. Canto tão antigo quanto o horizonte, quanto a vastidão verde de lembranças.... Este canto é antiquíssimo, mas se refaz. Toma corpo em barcos e jangadas, nas cigarras gritantes do final de tarde, nos versos riscados pelas mãos raivosas... é o canto antigo que toma novas formas e nos confere sua paixão. Não, ainda mais: seu ritmo, sua força, seu ímpeto, sua majestade. É um canto que no corpo é gesto, que no céu é o vento e a chuva, que no chão é o mar e a mata. Todos os gritos se renovam, numa nova geração de gritadores, a reorganizar o canto deste lado da Bahia.... Todos os silêncios se exasperam a ouvir de longe a agressividade destas vozes e o quebrar violento das ondas contra as rochas de cá. Toda a vitalidade fulgurante se entorpece e treme. Treme como jamais tremeu. A cada geração, a cada corrosão, a cada nova irrupção, uma nova poesia... um novo canto, sendo o mesmo, a se reconfigurar.

Atualmente, no auge de nosso engatinhar, somos pequeninos pontos num espaço gigantesco... infinitamente distantes uns dos outros mas, conforme escrevemos, cada vez mais em uma rota de colisão. Nossa história é o contínuo de marcas desse canto que, até agora há pouco, fora comum, mas que se dissolve em nossos pensamentos e se reescreve, fiel ao que estamos sendo, no corpo de nossa poesia. Somos gritos distintos demais... em rota de colisão.

Esta Nova Poesia, vívida e ao mesmo tempo mórbida, Sul Baiana, é um trecho vacilante (ou mesmo nota de rodapé) da vida poética do sul. Somos breves, eternamente ecos deste canto.... Somos polpa de um novo fruto, sintomas de uma nova doença, arranjamento de um novo coágulo. Ao mesmo tempo, porém, fruto de uma mesma árvore, doença de um mesmo mal, coágulo de um mesmo sangue. É o canto antigo que pulsa e se entoa, novamente, através de toda essa vida, mas que se agiganta e se eleva ao seu limite junto ao nosso grito. Mais uma vez este canto, junto aos nossos versos, reflexos, expulsos em uma folha de papel ou no vento denso dos céus da Bahia.... É o grito que mancha o tempo com seu peso e que obriga toda existência a contemplá-lo; é a face potente, cruel, ininterrupta de toda a nossa poesia que se reconfigura, antiga e, mais uma vez, novíssima. É canto perene, esta poesia. Canto velho, tanto quanto o horizonte ou a vastidão verde de lembranças... canto antigo e nova, para sempre Nova, a Poesia Sul Baiana....

Rui Benevides Prates
Nova Poesia Sul Baiana

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Temores da noite

1

A minha vida é como portas abertas e fechadas,
Um flash do que não foi, ou poderia ser.
Eu sou o incerto frustrado,
O silêncio em uma cena solitária,
O tempo que o fósforo leva até queimar o dedo.

Sou quase nada, com um sotaque carregado,
Desespero de pele grossa,
Tristeza feroz por uma brecha de luz
De salvação.
Eu estou morta, mas não desisti de viver
Eu estou dilacerada, mas ainda pulso por sentir.

No escuro, as pernas sabem para onde ir em caminho conhecido,
Mas eu jamais andei por aqui. 
Eu sou o resto de piedade de quem vos salvo
Ninguém, vestido com roupa de gala e eu sou tão triste que o meu sorriso falso cativa. 

Minhas lágrimas que tão verdadeiras eu não tenho coragem de derramar
Eu tenho vergonha de quem eu sou de quem eu criei
Eu tenho medo de quantas vezes vão cortar os meus fios
Ou se vão descobrir que fui eu quem os cortou. 
Eu sinto tanta vontade e mesmo assim o meu próprio julgar me diz não
Eu e meu corpo somos duas pessoas diferentes.
Eu sinto falta de me possuir.

***

2

Me desculpa se eu menti e você leu em meus olhos a verdade,
Eu gostaria de chorar calada na sua sala de tv
E eu queria que a minha existência fosse assim tão importante quanto a gente finge ser.

Eu queria que a cama fosse só minha e que a obrigação do silêncio fosse violada,
Que os meus olhos não ficassem impossibilitados de ver e que eu não sentisse vergonha de como a minha voz muda quando eu to chorando.
Gostaria que patética não fosse a palavra em minha mente para minha imagem
Que as palavras falassem frases mais modeladas 
Que a minha dor não fosse tão previsível lamento moderno.

Me conta como é ser você para as vezes eu desejar ser parte de sua história 
Pergunta do meu dia e me diz o que fazer.
Porque hoje eu não tenho com quem conversar
Não existe abraço que não seja nos meus próprios braços e
Eu choro como quem chora por perdão

Não ha ninguém por mim
E so ha por mim quem de mim fez ninguem
So existe o que me desfigurou 
E eu vou de mãos dadas com o meu assassino, calorosa recebida de um adeus sem fim.
Me aprofundo no que me rasga, sindrome de Estolcomo

***

3

Quando a gente passa de uma idade de descoberta e passa para uma fase de vivência, eu sinto falta do novo em mim. Eu sinto compulsivamente o desejo de viver um desconhecido bem gostoso, ou calminho fim de tarde. 
Só pela lembrança do sabor que é a empolgação de descobrir
Mas nós esquecemos da tão gritante e performática ausência de jovialidade,
Disposição, disponibilidade. Inocência, confiança, eu sinto falta da esperança 
Do mundo melhor, 
De ser diferente 
De amar.
A minha vida de tanta alegria eu me desgracei em insignificância 
Não existindo correlação corpo espírito eu sinceramente não sou mais eu e eu to com medo
Pra caralho 
Eu me envergonho de mim mesma

Giulia Caroline
Nova Poesia Sul Baiana

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Porta-voz

Eu me sinto só
mas quem não se sente?
Nesse mundo separatista
louco é ser humanista

Roubo os seus méritos
E desfaço-lhes da culpa
Mas não pense que sereis culpado
não discorde de vossa santidade

Apenas porta-voz
da pequena revolução
Todos juntos vamos achar
uma nova solução

 Levante a sua voz!
Defenda a renovação!
Porque bons e velhos costumes
o inferno tem de montão

Mais um porta-voz
da enorme revolução
Todos juntos vamos fundar
nossa própria religião.


João Otávio
Nova Poesia Sul Baiana

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Sobre fluidos


Às vezes tá tudo tão frio aqui fora
que a gente tem que sangrar ou gozar
pra lembrar que tem uma coisa
que ainda bate aqui dentro

e jorrando fluido quente
a gente percebe que é isso que faz a gente
ser tudo igual

mas cada um sangra de uma ferida diferente
de uma dor que ninguém mais sente
e goza numa foda que é única


(e tem gente que nem fodendo tá)

Carlos Bispo
Nova Poesia Sul Baiana